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TEXTO ORIGINAL

Compilação de Assis - 101

[101] 
1 Frater Ricerius de Marchia Anconitana, nobilis parentela sed nobilior sanctitate, quem beatus Franciscus magno diligebat affectu, quadam die in eodem palatio visitavit beatum Franciscum. 
2 Qui inter alia verba que de facto Religionis et observantia Regule locutus cum beato Francisco, de hoc quoque interrogavit ipsum dicens: 
3 “Dic michi, pater, intentionem tuam quem habuisti a principio quando fratres habere cepisti, et intentionem tuam quem habes modo et credis habere usque ad diem mortis tue, 
4 ut valeam certificari de tua intentione et voluntate prima et ultima, utrum nos fratres clerici, qui tot libros habemus, possimus habere, licet dicamus quod sint Religionis”. 
5 Dixit ad eum beatus Franciscus: “Dico tibi, frater, quod hec fuit et est prima et ultima mea intentio et voluntas, si fratres michi credidissent, quod nullus frater deberet habere nisi vestimentum, sicut Regula nostra nobis concedit, cum cingulo et femoralibus”. 
6 Unde quadam vice dixit: “Religio et vita fratrum Minorum est quidam pusillus grex (cfr. Luc 12,32), quem Filius Dei in hac novissima hora (cfr. 1Ioa 2,18) suo Patri celesti postulavit dicens: 
7 Pater, vellem quod faceres et dares michi quendam novum et humilem populum in hac novissima hora (cfr. 1Ioa 2,18), qui esset dissimilis in humilitate et paupertate ab omnibus aliis qui precesserunt et esset contentus habere me solum. 
8 Et ait Pater dilecto Filio suo: Fili, factum est quod postulasti”. 
9 Unde dicebat beatus Franciscus quod “ideo voluit Dominus ut vocarentur fratres Minores, quia iste est populus quem Filius Dei suo Patri postulavit; 
10 ipsemet Dei Filius de ipsis dicit in Evangelio: Nolite timere pusillus grex, quia placuit Patri vestro dare vobis regnum (Luc 12,32), 
11 et iterum: Quod uni ex his minoribus fratribus meis fecistis michi fecistis (cfr. Mat 25,40). 
12 Quoniam licet de omnibus pauperibus spiritualibus intelligatur Dominus hoc dixisse, precipue tamen predixit Religionem fratrum Minorum esse venturam in Ecclesia sua”. 
13 Unde sicut revelatum fuit beato Francisco ut deberet vocari Religio Minorum fratrum, ita scribi fecit in prima Regula, cum portavit eam coram domino papa Innocentio III, et ipse approbavit et concessit sibi et postea in concilio omnibus annuntiavit. 
14 Similiter et salutationem quam deberent facere fratres Dominus ei revelavit, sicut scribi fecit in Testamento suo dicens: 
15 “Dominus michi revelavit ut deberem dicere pro salutatione: Dominus det tibi pacem (cfr. Num 6,26; 2The 3,16)“. 
16 Unde in primordio Religionis, cum iret beatus Franciscus cum quodam fratre qui fuit unus de .XII. primis fratribus, ille frater salutabat homines et mulieres per viam et eos qui erant in agris dicens: Dominus det vobis pacem (cfr. Num 6,26; 2The 3,16)”. 
17 Et quia homines non audierant adhuc fieri ab aliquibus religiosis talem salutationem plurimum inde mirabantur. 
18 Immo aliqui homines quasi cum indignatione illis dicebant: “Quid sibi vult ista talis salutatio (cfr. Luc 1,29)?”. 
19 Ita quod frater ille cepit inde plurimum verecundari. 
20 Unde dixit beato Francisco: “Dimitte, frater, aliam salutationem dicere”. 
21 Dixit ad eum beatus Franciscus: “Dimitte illos dicere, quia non percipiunt que Dei sunt (cfr. 1Cor 2,14). 
22 Sed noli inde verecundari, quoniam dico tibi, frater, quod adhuc nobiles et principes huius seculi de huiusmodi salutatione tibi et aliis fratribus reverentiam exhibebunt”. 
23 Et ait beatus Franciscus: “Non est magnum, si Dominus habere voluit quendam parvum populum inter omnes alios qui precesserunt, qui esset contentus habere ipsum solum altissimum et gloriosum?”. 
24 Si vero aliquis frater voluerit dicere, cur beatus Franciscus tempore suo ita strictam paupertatem, sicut dixit fratri Ricerio, non fecit fratribus observari et observandam non mandavit, 
25 nos vero qui cum ipso fuimus (cfr. 2Pet 1,18) ad hoc respondemus, sicut audivimus ex ore eius, quoniam ipse fratribus hoc et alia plurima dixit ac etiam in Regula plura scribi fecit que cum assidua oratione et meditatione a Domino postulabat pro utilitate Religionis, affirmans eam penitus esse Domini voluntatem. 
26 Sed, postquam eis ostendebat, gravia et importabilia (cfr. Mat 23,4) ipsis videbantur, ignorantes tunc que ventura erant in Religione post mortem eius. 
27 Et quia plurimum timebat scandalum in se et in fratribus, nolebat cum ipsis contendere; sed condescendebat, licet non voluntarie, voluntati eorum, et coram Domino se excusabat. 
28 Sed, ut non reverteretur ad Dominum vacuum verbum (cfr. Is 55,11) suum, quod in ore eius ponebat (cfr. Ex 4,15) pro utilitate fratrum, volebat in se implere, ut mercedem inde a Domino consequeretur, et ad ultimum in hoc quiescebat, et consolabatur spiritus eius.

TEXTO TRADUZIDO

Compilação de Assis - 101

[101] 
1 Frei Ricério da Marca de Ancona, nobre de parentela mas ainda mais nobre de santidade, a quem o bem-aventurado Francisco amava com grande afeto, visitou certo dia no mesmo palácio ao bem-aventurado Francisco. 
2 Entre outras palavras, em que comentou com o bem-aventurado Francisco sobre a situação da Religião a observância da Regra, também o interrogou sobre isto, dizendo: 
3 “Conta-me, pai, que intenção tiveste desde o princípio quando começaste a ter irmãos, e a intenção que tens agora, e achas que vais ter até tua morte, 
4 para que eu possa me certificar de tua intenção e vontade primeira e última, e saber se nós, irmãos clérigos, que temos tantos livros, podemos tê-los, embora digamos que são da Religião”. 
5 Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: Irmãos, eu te digo que está foi e é minha primeira e última intenção e vontade, se os frades acreditassem em mim, que nenhum frade deveria ter senão a roupa, como a Regra nos concede, com o cíngulo e os calções”. 
6 Por isso, houve uma vez em que disse: “A religião e a vida dos frades menores é um pequeno rebanho, que o Filho de Deus pediu a seu Pai celeste nesta última hora, dizendo: 
7 Pai, gostaria que constituísses e me desses um povo novo e humilde neste última hora, que seja diferente na humildade e na pobreza de todos os outros que precederam e que ficasse contente de possuir só a mim. 
8 E o Pai disse a seu dileto Filho: Filho, foi feito o que pediste”. 
9 Por isso o bem-aventurado Francisco dizia que “por isso quis o Senhor que se chamassem frades menores, porque este é o povo que o Filho de deus pediu a seu Pai. 
10 O próprio Filho de deus disse sobre eles no Evangelho: Não tenha medo, pequeno rebanho, porque aprouve a vosso Pai dar-vos o reino (Luc 12,32), 
11 e continuando: O que fizestes a um dos menores destes meus irmãos, foi a mim que fizestes (cfr. Mat 25,40). 
12 Porque ainda que se entenda que o Senhor disse isso a respeito de todos os pobres espirituais, na verdade predisse principalmente que a Religião dos frades menores viria a existir em sua Igreja”. 
13 Por isso, como foi revelado ao bem-aventurado Francisco que a religião deveria chamar-se dos frades menores, assim fez escrever na primeira Regra, quando a levou para apresentar ao senhor papa Inocêncio III, e ele aprovou e concedeu a ele e depois anunciou a todos em um concílio. 
14 Semelhantemente, também a saudação que o senhor lhe revelou que os frades deviam dizer, como mandou escrever em seu testamento dizendo: 
15 “O Senhor me revelou que eu deveria dizer como saudação: O Senhor te dê a paz (cfr. Nm 6,26; 2Ts 3,16)“. 
16 Por isso, no começo da religião, quando o bem-aventurado Francisco foi com um frade que foi um dos doze primeiros frades, esse frade saudava os homens e as mulheres pelos caminhos e os que estavam nos campos dizendo: O senhor vos dê a paz”. 
17 E como as pessoas ainda não tinham ouvido tal saudação feita por nenhum religioso, ficavam muito admirados com isso. 
18 Houve até algumas pessoas que lhes disseram, como se estivessem indignadas: “O que quer essa saudação?”. 
19 De modo que aquele frade começou a ficar muito envergonhado por causa disso. 
20 Daí disse ao bem-aventurado Francisco: “Irmão, deixa dizer outra saudação”. 
21 O bem-aventurado Francisco respondeu-lhe: “Deixa que eles falem, porque não entendem o que é de Deus. 
22 Mas não fiques com vergonha, porque eu te digo, irmão, que nobres e príncipes deste século ainda vão demonstrar reverência a ti e aos outros frades por essa saudação”. 
23 E disse o bem-aventurado Francisco: “Não é uma grande coisa que o Senhor tenha querido um pequeno povo entre todos os outros que precederam, que ficasse contente de possuir só a Ele, altíssimo e glorioso?”. 
24 Mas se algum frade quiser dizer: por que o bem-aventurado Francisco, no seu tempo, não fez os frades observarem uma pobreza tão estrita como a que disse a Frei Ricério, e não mandou observá-la, 
25 nós que estivemos com ele responderemos a isso, como ouvimos de sua boca, porque ele mesmo disse isso e muitas outras coisas aos frades e também mandou escrever na Regra muitas coisas que pedia ao Senhor com assídua oração e meditação, pelo bem da religião, afirmando que essa era certamente a vontade do Senhor. 
26 Mas, depois que as mostrava a eles, pareciam-lhes graves e insuportáveis, ignorando então o que aconteceria na ordem depois da morte dele. 
27 E como temia muito um escândalo em si e nos frades, não queria discutir com eles; mas condescendia, ainda que sem querer, à vontade deles, e se escusava diante de Deus. 
28 Mas, para que não voltasse vazia para deus a palavra que punha em sua boca para a utilidade dos frades, queria cumpri-la em si, para conseguir por isso a mercê de Deus, e no fim aquietava-se nisso e consolava seu espírito.